sexta-feira, 23 de março de 2012

merda!



 


Um amigo me contou que foi a um open house de um conhecido rico dele que não teve um final muito bom.

Disse que o anfitrião estava superfeliz pela aquisição da casa de três andares, vários cômodos espaçosos, decorada com luxuosa mobília, piscina, churrasqueira e jardim exuberante com design futurista, num condomínio chique e num bairro igualmente chique.

Mais feliz ele estava ainda por poder exibir tudo isso para todos os presentes, entediando cada grupinho de convidados em que parava, contando a origem de cada objeto da decoração, curiosidades,  motivo da escolha e preço. Sem falar nas fotos e souvenirs dos países que conheceu, onde comeu, o que visitou, onde se hospedou e quanto gastou. Quando resolvia impressionar outro grupo, trazia grande alívio ao grupo anterior que era dispensado com um desatento com licença.

Com o decorrer da festa, meu amigo que estava com sua esposa, já cansado de comer canapés sofisticados e beber bebidas caras, precisou ir ao banheiro. E nessas horas, pouco importa se o banheiro possui mármores carrara, porcelanatos de outro planeta, torneiras de ouro, ou se é um banheiro mal cheiroso de botequim.

Porém, como em toda festa, outras pessoas tiveram a mesma idéia ao mesmo tempo, lotando a porta do wc social do living room.   

Mas a sorte do meu amigo mudou quando encontrou no terceiro andar, outra fila menor para o banheiro. E melhorou mais quando duas garotas privilegiadas pela beleza que a idade e o dinheiro davam, ficaram imediatamente atrás dele na fila.

Para parecer um coroa descolado para as meninas, estufou o peito, encolheu a barriga e fez um sorrisinho meio sensual, o que segundo ele, chamou a atenção de uma delas que "não parava de me olhar".

Quando se deu conta, já era a sua vez.

Depois que começou a fazer suas necessidades, lembrou que, fatalmente, deixaria o banheiro com um odor nada agradável para as meninas, e que não adiantaria colocar a culpa em outra pessoa ao sair, pois a fila andou muito rápido, dando a entender que todos na sua frente apenas urinaram.

A única saída que viu era agir rápido para parecer que urinou demoradamente, ou fez o número dois rapidamente, afinal, nesse caso, melhor a dúvida do que a certeza.

Então, pôs o plano em prática fazendo tudo numa velocidade inacreditável. Num salto, já estava vestido, dando descarga e já lavando as mãos. Antes de sair porém, resolveu se certificar do sucesso do seu plano e abriu a tampa do vaso. Merda! Tinha uma teimosa que não acompanhou as amigas.

Insistiu em dar outra descarga, mas a caixa acoplada demorava a encher... "e aquele anfitrião filho da puta se gabando de ter tudo do bom e do melhor e com essa merda de descarga."

Quando finalmente a caixa acoplada encheu, deu outra descarga, mas ela continuava lá. Repetiu a operação de novo, de novo e de novo... mas ela ainda continuava lá.

Pensou em sair do banheiro e deixar aquele problema para o próximo resolver, mas os próximos seriam as meninas bizzarramente lindas, que nunca fizeram coco, ou tiveram meleca, remela ou suor. Não, não podia, de jeito nenhum...

Nessa altura, constatou que as meninas já sabiam que ele não estava apenas urinando. Imaginou elas entrando no banheiro, abrindo a tampa do vaso e dando de cara com aquela merda, sabendo que ele quem fez, que saiu dele... Sentiu um pânico carregado de vergonha e raiva que lhe fez chorar sentado na privada esperando mais uma vez a porra da caixa encher.

O som da água enchendo a descarga parou. Meu amigo levantou-se da privada, liberou a água da caixa e ficou acompanhando, esperançoso, o seu excremento lutando para não sumir no rodamoinho barulhento... expectativa...no fim, lá estava ela rindo dele, zombando dele, mostrando que ela conseguia envergonhá-lo, sua própria merda...

Num surto psicótico, ele deu um grito assustador de desespero, que certamente foi ouvido pelas meninas do lado de fora, agarrou a merda na mão, estendeu o braço, para fora do basculante com vista para o mar, e a soltou.

Depois de se recompor, acalmou a respiração, lavou as mãos, enxugou o suor da testa e saiu do banheiro sem olhar para os lados, sabendo que todos o fitavam perplexos com a gritaria que fez, mas sem nada questionar.

Ao descer encontrou os convidados agitados num burburinho, e sua mulher veio ao seu encontro com os olhos arregalados tentando explicar o que aconteceu, quando foi interrompida pelo próprio anfitrião que passou por eles chorando, amparado por outras pessoas, sujo de coco na cabeça e na camisa branca de grife, gritando: "Eu só chamei amigos para dividir comigo minha felicidade, e olha o que fizeram, meu Deus..."

Disse ele que, mesmo diante do mal estar que se formou, riu descontroladamente, e ri de chorar sempre que conta isso pra alguém.

terça-feira, 6 de março de 2012

feitos pra andar


Sempre achei voar o máximo.

Tenho inveja dos urubus e gaivotas que voam imponentes lá no alto, vendo tudo a seus pés e o infinito acima deles, não se importando com altura, com distância, alheios ao caos do mundo dos que pisam nesse chão. Fico imaginando a delícia de sensação  de dar uns rasantes, ter o céu inteiro para explorar, voar rápido, devagar, planar, chegar em locais que ninguém jamais vai chegar de outra forma.

Mas não me agrada a idéia de ter asas que nem os anjos porque seria bem incômodo esbarrá-las em todo lugar, fazer um buraco para elas nas camisas, jaquetas e cia., soltar pena, tomar cuidado pra não quebrá-las, queimá-las, sujá-las, dormir com aquelas porras nas costas então...

As asas dos morcegos são menos incômodas, já que não ficam nas costas, porém perderíamos as mãos, pois, pra quem não sabe, a asa é um prolongamento dos braços e dedos do animal.

Já asas de insetos que se recolhem, como os besouros, são mais úteis, entretanto voar com 4 asas batendo milhares de vezes por minuto me passa um desgaste, um cansaço só de pensar, seria mais um vôo apressado, nervoso, tenso, sem prazer, sem poesia... uma merda, melhor rastejar.

Voar sem asas pode ser a solução, mas que nem o super-homem com os braços estendidos pra frente e uma perna ligeiramente flexionada, nunca me encantou, aliás qual a razão dessa pose? Muito artificial.

Tem também o voo dos fantasmas, que, diferente do super-homem, é mais natural, com mais leveza, porém sem controle, limitado e fantasmagórico (obviamente), lembrando mais um saco plástico impulsionado pela brisa.

Peter Pan estaria mais próximo do que imagino, se não fosse a indiferença dele quando voa, como se fosse fácil e sem importância. Banal como piscar os olhos.

O ideal, pra mim, é que seja um vôo parecido com o nadar das arraias e das tartarugas,  com menos resistência, menos atrito, deslizando mais, para se ter toda liberdade no ar para mergulhar, girar, dar cambalhotas, subir, descer, ficar de costas, de cabeça para baixo... teria que ser antes de tudo, um lazer.

Pra isso, a gravidade não poderia ser tão severa, aliás, que exagero esse rigor  pra manter as coisas no chão, como se tudo quisesse fugir do planeta na primeira oportunidade. A gravidade poderia ser mais light deixando as coisas como que em slow motion, sem pressa, possibilitando admirar a beleza de qualquer coisa que caia, quebre e exploda.

Complicados que somos, trocaríamos os nossos vôos pessoais por uma carona em algum avião, usando como desculpa o cabelo que ficaria desarrumado com a velocidade, ou o frio que faz em algumas altitudes, ou os insetos que se esborracham na nossa cara, ou a mesma preguiça que nos impede de caminhar hoje em dia.

Aí voar já não seria liberdade, mas retrocesso, algo primitivo e antiestético, e voltaríamos a andar, pois pra isso que fomos feitos.

Nos restando apenas admirar os urubus e gaivotas, que despretensiosamente, dão um show.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

paixão doentia



De manhã quando acordo, ela já está em cima. Quando vou dormir, está à minha espera na cama, sedenta e ansiosa.

Luto em vão durante a noite para resistir às suas insaciáveis investidas, que me cansam sem chance de descanso.

Me persegue pela casa, em cada cômodo, a qualquer hora, obcecada por mim.

Louca, sobe pelas paredes, se pendura no ventilador de teto e paira sobre mim faminta.

Quando finalmente me tem, gruda sua boca em mim com delicadeza e discrição, sem se importar com a humilhação de, às vezes, eu nem percebê-la, xingá-la ou tratá-la com violência física.

Sem respeito próprio, se submete a essa agressão moral, porque não controla o desejo pelo meu corpo, da testa ao dedão do pé.

Depois de satisfeita, vai e deixa sua marca para eu lembrar dela. E, sempre que lembro, tenho vontade de tê-la nas mãos e esmagá-la.

Seria melhor para todo mundo se ela fosse como o macho da espécie dela, que se alimenta de seiva das florezinhas, mas as fêmeas de aedes aegypti gostam mesmo é de sangue quente.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

nos fundos, somos todos iguais



Quando uma pessoa é chata, recebe logo alcunhada de "pentelho". Tais pelos, além de se tornarem sinônimo de pessoa inconveniente e criança bagunceira, também exprimem algo desprezível e sórdido.

Mas esses pelos não se resumem a um chumaço de cabelo duro, inútil e com má fama, porque há quem enxergue neles grande fonte de desejo sexual, utilidade para proteção e aquecimento natural dos genitais, desde que estejam no lugar que deveriam estar e não encontrados nos alimentos.

Porém, são bem mais do que isso, são talvez uma forma de "castigo" ou "benção" de Deus, que os colocou em todo ser humano, rico ou pobre, feio ou bonito, bom ou mal (menos algumas tribos indígenas, sei lá porquê) para mostrar, quem sabe, que nos fundos, somos todos iguais.

Pode ser também uma espécie de placa de sinalização para alertar sobre o cuidado que se deve ter com o que eles envolvem com tanto excesso, que quando usado irresponsavelmente, a vida do irresponsável fica tão enrolada quanto eles.

Grande problema hoje em dia é tê-los, as mulheres que o digam, pois preferem serem torturadas com cera quente e arrancá-los em seguida, a ter que aceitá-los.

Mas quem tem mais razão em extirpá-los do corpo são os homens, principalmente quando ocorre uma ereção fora de hora com tudo embolado, não restando nada a fazer a não ser se curvar e  implorar pra morrer.

Graças a eles, filmes de décadas anteriores brilharam, onde a ousada figura triangular nas mulheres era entendido como "completamente" nua.

Há quem curta esses caras e ainda brinquem com eles, se depilando de forma a deixar um bigodinho de Chaplin, um coraçãozinho, alguma letra do alfabeto, um jogo da velha, o nome da mãe, uma santa cruz... até os menos preocupados, chegados ao natural, que criam verdadeiros gorilas por opção.

Os adeptos dessa arte devem sofrer tendo que se contentar em mostrar sua "obra" para poucas pessoas, com exceção daqueles que acabam ignorando o alerta falado no 4º parágrafo desse post, e acabam mostrando além do que deveriam e, fatalmente, se enrolando tanto quanto a "placa de sinalização".


O que mais surpreende é que todos, dos que odeiam, aos que amam os tais pelos, incluindo você que está lendo isso agora, todos, sem exceção, já tiveram a auto-estima reafirmada na puberdade com o nascimento dos primeiros fios.

Por isso, pense neles com mais carinho, não os considere uma praga, a não ser que tenham hospedeiros neles.

E deixa de ser pentelho.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

"vai se esfregar na sua mãe"

                 
                      



Eu uso metrô sempre que posso, e não sei se é uma benção ou uma maldição precisar dele, sei apenas que a condição humana é testada ao extremo em algumas viagens.

Começando pela intimidade, em que as pessoas procuram fixar a atenção nos detalhes da parede ou do teto do vagão, nos anúncios, avisos, ou em qualquer coisa que evite cruzar o olhar com outra pessoa. E essa preservação persiste até no suplício dos vagões lotados nos horários de rush, mesmo a poucos centímetros da boca de outra pessoa, ou já em contato físico com as várias partes dos corpos ao seu redor, inclusive áreas erógenas, além da respiração, axilas, espirros, tosses e peidos alheios, que algum filho da puta sempre solta nessas horas.

Acho que ninguém se olha pra não dar inicio a um exótico bacanal com diferentes raças, idades, credos, tipos físicos, status, gêneros...

Mais incrível é que tem gente que reclama e até briga por causa da proximidade. Porém, para brigar, só se os braços já estiverem para cima, pois do contrário, é impossível levantá-los no bloco sólido, inabalável, estável, que se forma com a lotação. Briga só de cuspe.

Aliás, desentendimentos são muito comuns, as queixas variam muito, mas na maioria das vezes é sobre a truculência dos outros passageiros.

Meu amigo me contou que uma senhora quase jogou sua esposa no chão quando eles seguiam para o trabalho. Depois de reclamar, a esposa do amigo ouviu daquela senhora, em alto e bom som, pronunciado com as sílabas sarcasticamente separadas, um malcriado "PO-BRE-MA".

Também já presenciei esses barracos entre duas mulheres de salto alto, bem arrumadas, cabelos leves e com balanço e que sabiam pronunciar "problema" corretamente, que se xingavam como crianças de CIEPS.
.
Quase fui linchado uma vez, quando ao descer na minha estação, uma retardada que deveria esperar as pessoas saíram para entrar, me empurrou de volta para o vagão, acabando por embolar a alça de sua bolsa no meu celular preso na cintura - isso já foi moda.

Para não perder o aparelho, eu tive que puxar a bolsa para soltá-la. Mas a mulher não entendeu assim e começou a gritar achando que eu a estava roubando. Ainda bem que eu consegui soltar o celular e pular fora do vagão antes da porta fechar.

Outro dia um cara queria brigar com outro porque ele estava perto demais da sua namorada. O rapaz acusado e mais fraco, para evitar que a situação piorasse, fez coro aos pedidos da namorada do outro perguntando se ele estava pensando na tensão e desespero dela, caso eles "se embolassem na porrada" - palavras dele. Com isso, não houve briga e o rapaz continuou "amigavelmente" atrás da namorada do outro.

Para ser acusado de tarado, basta ser homem. Soube de outro amigo que passou a maior vergonha  porque uma mulher começou a gritar para ele se esfregar na mãe dele, e ele nem gosta da fruta.

Ainda tem a estação de "transferência para linha 2 e trens da Supervia" que contraria a Teoria da Evolução de Darwin, pois as pessoas atropelam velhos, crianças, grávidas, cadeiras de roda, polícia, bandido, Deus, a própria mãe deles... tudo que tiver na frente, um verdadeiro estouro da boiada louca.

Nunca vou esquecer a primeira vez que eu presenciei isso, que por azar estava na porta de saída deles, e fui arrastado por alguns metros do vagão que estava até conseguir sair pela lateral da correnteza. Mas outras pessoas não tiveram a mesma sorte e sumiram naquele tsunami cruel que ignorava os seus desesperados pedidos de socorro e braços estendidos para quem estava no vagão, que nada podiam fazer a não ser rezar por eles. Só de lembrar, meu coração dispara e começo a tremer.

No metrô, já vi bêbados ridículos falando merda, casais apaixonados quase acasalando, gente fofocando sobre colegas de trabalho, cornos se lamuriando, tarados fotografando mulheres distraídas, azaração homo e heterosexual, já assisti aulas de direito, administração, conversas calorosas sobre futebol, big brother, política e claro, o próprio metrô.

Apesar desse cataclismo, continuo utilizando esse hospício móvel porque toda essa tortura dura menos do que duraria em outro transporte e porque ainda não presenciei ninguém cagado, ainda.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

condenado pela evolução



Pra que que serve o dente siso, senão para levar dor e sofrimento a quem o tem?

É um dente que levanta desconfiança por nascer muito depois do tempo, acabando com a paz da boca que já está lotada com seus 28 residentes, e ele ainda traz consigo até três comparsas, na maioria das vezes.

Os outros dentes, sem alternativa, se apertam para caber os encrenqueiros, facilitando a criação de cáries entre eles, fora os problemas que ele pode trazer antes mesmo de nascer, lembrando o filme de terror "O Bebê de Rosemary".

Como alguém suspeito, ele se esconde nas trevas,  no fundo da boca, exigindo que a mesma se abra num ângulo próximo dos 90° para caber as duas mãos quase que inteiramente, para poder limpá-lo com fio dental.

Um dente sinistro como esse, só pode ter prazer em infringir dor, e faz isso como ninguém, desde seu nascimento até sua extração, principalmente,  e no intervalo entre uma coisa e outra, quando resolve doer.

Condenado pela evolução, onde sua origem na pré-história fazia sentido para o homem das cavernas que precisava de reforço na dentição para a sua dieta de carne crua, ele insiste em nascer por pura maldade, já que o homem moderno não precisa mais fazer tanta força para mastigar.

Com isso, concluo que, apesar das dores dilacerantes, inchaços, dietas escrotas, compressas de gelo, analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos, oriundos da extração desse maldito, estou passando por toda essa tortura desnecessariamente, por culpa da incompetente evolução que não me incluiu nos seus planos.

E eu nem sou tão carnívoro assim.








domingo, 22 de janeiro de 2012

de boa intenção o porteiro está cheio





O que seria da vida dos moradores dos prédios sem os bem intencionados e dedicados porteiros. 

Homens simples, que na maioria das vezes sabem tudo de esportes, cultura, política, religião, metereologia, história geral, do Brasil, do bairro, da rua e do morador. Alguns sabem apenas o último assunto.

Mas longe de ser uma coisa negativa, a dedicação ao morador é um zelo louvável.

O porteiro do meu prédio, um coroa gente boa que tem seu próprio dialeto, é um bom exemplo de ser humano cheio daquelas boas intenções do ditado.

Para provar que é homem dedicado, que não está desperdiçando o dinheiro do morador, ele acorda 5 horas da manhã diariamente, batendo portas, deixando coisas barulhentas caírem e arrastando os passos por onde quer que vá.

Trazendo um pouco de cultura e fé aos moradores, ele assovia sempre que pode  "Asa Branca", exceto quando está ouvindo no último volume um radinho numa estação evangélica.

Ele pensa na segurança do prédio quando abre a porta do elevador pra ver quem está dentro, mesmo sabendo que o elevador leva quase um século para fechar a porta de novo, isso quando não cisma de conversar com quem está dentro, mostrando assim a sua simpatia.

Zelando pela minha imagem e reputação, me conta, sem eu perguntar, quem entrou ou saiu da minha casa na minha ausência, desde a minha sogra até entregadores do petshop, supermercados, locadoras de vídeos... inclusive a hora.

Quando quer saber pra onde eu vou quando estou saindo, ou de onde estou vindo, faz por preocupação quase materna, afinal, o mundo anda muito violento...

Sua solidariedade comove a todos, exceto a síndica que mandou arrancar os pés de feijão que ele plantou no jardim, entendendo que alimentação é mais importante do que a inutilidade do paisagismo. 

Seguindo à risca a máxima "pra que deixar para depois o que se pode fazer agora", ele acorda a gente pela manhã tocando a campainha impacientemente para entregar correspondências que podem ser entregues a qualquer hora do dia.

Com tantas tarefas para um ser humano fazer durante o dia, fica fácil entender os recados deturpados que ele dá, como o dia que ele garantiu que não faltaria água, contrariando uma semana de avisos colados nas paredes do prédio, e que terminou por minha mulher e filha ficarem cheias de espuma na cabeça dentro do box e sem água para se enxaguarem no banho.

Reparei que, apesar do grande coração que ele possui, ninguém o cumprimentava com aperto de mão e passei a fazer isso. 

Porém, o gesto ficou banal depois de se repetir sempre que nos víamos, às vezes com pequenos intervalos de ir e voltar na padaria ou coisa parecida. Entretanto, não foi por isso que o cumprimento se extinguiu, mas depois de ocorrer imediatamente depois de limpar o suor da testa ou assoar o nariz.

Apesar de tudo, se ele fosse o porteiro perfeito - se é que existe - sentiria falta das suas trapalhadas, o prédio seria mais triste e eu não teria ninguém pra dizer quem esteve na minha casa na minha ausência.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

todo mundo é um pouco maluco




Ontem entrei no prédio com minha filha e mais uma vez apostamos corrida da porta até o elevador, pisando apenas nos quadrados pretos do piso xadrez da portaria.

Essa brincadeira se repete, praticamente, desde quando ela aprendeu a correr, e sempre que está de bom humor.

Parece mania de criança, mas já me flagrei só pisando nos pisos pretos ou só nos claros da portaria, ou usando degrau sim, degrau não da escada, prendendo a respiração no elevador até chegar no meu andar, ou me equilibrando nos canteiros estreitos que cercam algumas árvores nas calçadas...

Algumas dessas manias são até úteis, como apostar corrida com as pessoas na rua quando estou com pressa, acaba diminuindo o atraso.

Isso, claro, sem elas saberem.

Do contrário, vira uma guerra de nervos, como ocorreu no dia em que ultrapassei um pirralho com uniforme de escola, que não satisfeito, tomou a frente novamente. Eu como adulto, apelei para minha condição e mostrei para ele o que uma perna maior é capaz de fazer, e o deixei pra trás novamente.

Mas subestimei a obstinação infantil que fez o moleque me alcançar e sorrir desafiadoramente, como quem diz "eu que vou ganhar".  E ganhou, mas só porque eu me deixei vencer pela vergonha de me imaginar correndo pela rua com um garoto no meu encalço, aquela peste.

Quando eu me dava conta que fazia essas coisas, me passava pela cabeça que eu tinha algum transtorno, já que eu não era mais criança para justificar essas doidices - como diria a minha avó.

Até que um dia, aconteceu o que eu mais temia:  eu caminhava de olhos fechados da minha porta
até o elevador no corredor do meu andar, e um vizinho ninja apareceu sem fazer barulho, me surpreendendo com a pergunta "Tá tudo bem?"

Hiper-mega-super (usando o palavreado da minha filha) sem graça, tentei disfarçar o indisfarçável, dizendo que... nem lembro o que eu disse..

Compadecido com o meu constrangimento, meu vizinho interrompeu minha tentativa de explicar aquele sei lá o quê, me dizendo que ele uma vez foi surpreendido pela mulher quando também andava de olhos fechados.

Foi aí que eu vi que todo mundo é um pouco maluco.

Com o tempo ouvi pessoas que confessaram que também não pisavam nas pedras portuguesas pretas do calçadão de Copacabana, ou evitavam a todo custo as linhas que separam um piso de outro, outros esmagavam folhas secas sempre que podiam, que se apoderavam de irresistíveis gravetos das ruas ou na mão de outros maníacos,  gente que conta  degraus quando sobe escada,  que a cada passo, vai separando sílabas de palavras, que marcam o ritmo de alguma música batendo os dentes ... são tantas que me sinto até normal com as minhas. Tem até gente que chupa roda molhada no varal.

Além do plástico bolha, que eu nem preciso falar.

Acho que essas pequenas manias não chegam a ser um transtorno obsessivo-compulsivo, mas a criança dentro da gente dando sinal de vida e querendo brincar.

E, sinceramente, a falta de explicação para essas manias é só mais uma coisa sem explicação nesse mundo inexplicável.

O que importa mesmo é satisfazê-las, para ter a deliciosa sensação "eu consegui", que aquele pirralho que eu deixei ganhar a corrida teve no meu lugar, aquele viadinho.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

facebook do inferno



Depois de uma resistência típica dos idosos turrões às maravilhas tecnológicas do mundo novo, fui obrigado a me render ao Facebook.

Ainda torço o nariz para isso, mas fiz por amor a este blog que me dá tanta alegria sem reconhecimento (nem comentários os ingratos leitores postam). Tudo porque me disseram que o Face - para os íntimos - é ideal para divulgar esse tipo de coisa... enfim, tamos aí.

Confesso que estou assustado, muito assustado: logo depois que eu fiz minha conta e fui "aceito" pela minha mulher, milhões de pessoas saltaram com seus sorrisos, corpos sarados, cônjuges e famílias felizes, filhos, cachorros, paisagens... um mundo de esquisitices diante de mim me convidando: "venha, junte-se a nós e seja feliz para sempre."

Pensei em voltar atrás, mas já era tarde, já tinha sido aceito e convidado por outras pessoas, ficando preso a uma interminável teia de amigos dos amigos dos amigos dos amigos que saltavam à minha tela com seus sorrisos simpáticos e se multiplicando à medida que eu piscava ou respirava.

Como se não bastasse essa epidemia, ainda tinha as tais sugestões de amizades com todo o planeta.

Me senti como se estivesse chegando num animado churrasco com conhecidos no bar, na piscina, na entrada, na escada, no meio do caminho, no banheiro, na churrasqueira, conversando em meio ao som alto, sobre política, novela, trabalho, religião, lembranças, futebol, fazendo fofoca, piada, rindo, chorando, brigando, paqueirando, em grupos, separados... como seu eu fosse o último chato  capturado pelo mundo dos sorrisos eternos e com um policial expondo a minha cara para os fotógrafos.

Então, começaram os conflitos: Será que estou ferindo alguma etiqueta ou regra se eu optar por "agora não" em vez de "confirmar" as solicitações de amizades? Seria de bom tom fazer isso? Eu ficaria antipático diante dessa multidão de simpáticos? Vão colocar meu nome na macumba, ou me ameaçar ou arranhar meu carro se eu não aceitar alguém? Tenho medo dos psicopatas carentes que não sabem lidar com rejeição.

E o que fazer com as pessoas que eu só cumprimento, que já perdi contato, que morreram... tenho que tê-las eternamente como amigos pra quê?

Pior do que isso é decidir pela foto do perfil: já pensei em colocar a minha família feliz, eu e minha amada felizes, eu feliz sozinho, fotos de paisagens, fotos antigas, meu cachorro, meu aquário...

Procurando a foto perfeita, venho fazendo trocas de 10 em 10 minutos. Por enquanto está durando eu com a minha filha, mas quando você ler isso pode ser que já tenha mudado também.

Já me contaminei com a esquizofrenia de mostrar como também sou bonito e feliz, porém, por mais que a foto mostre isso, depois que eu a coloco no perfil ela mostra o contrário. Merda! Mas eu vou encontrar, eu sei que vou...

E isso porque estou enfaceado há menos de uma semana,  é só o começo.

Obsessões à parte, acho que vai ser isso daqui para frente: relações se formando, se estreitando e terminando sem, nem ao menos, as pessoas se tocarem.

Ah! Descobri ontem que o Face, pode ser também fb.

Apesar do velhinho em mim criticar, acredite, eu estou


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

365 dias


Estava tentando escrever este post sobre o ano que passou, quando minha filha me interrompeu perguntando se podia gritar uma coisa da janela.

Ela sabe que não é hora de estar acordada, muito menos de gritar pela janela, mas pra não me desconcentrar disse que sim, sem tirar os olhos do monitor. - sou pai, puxa!

Com o fôlego preparado, pronta para soltar a voz, ela aborta a missão para perguntar: "Posso mesmo?

Seria inútil escrever com ela por perto, então voltei a atenção para a pergunta, que tinha uma certa  transgressão no ar, não só pelo horário, mas pelo que seria comunicado janela à fora.

Sei que nada justifica uma criança de 5 anos ficar gritando pela janela tarde da noite, mas pior seria se fizesse isso gritando alguma coisa que eu fosse me arrepender de ter autorizado.

Perguntei, então, o que ela pretendia gritar e ela me respondeu que era uma frase que acabara  de ouvir na tv.

Essa frase resumia o que eu ia escrever sobre a expectativa do ano novo,  retrospectiva do que passou, ano bom ou ruim, baseado no balanço dos acontecimentos, as metas a serem alcançadas no ano que está chegando...

Sobre isso, três coisas são certas:

.é certo que nos últimos 365 dias vivemos emoções produzidas por vários acontecimentos, e tantas outras serão produzidas pelos acontecimentos dos próximos 365 dias que virão;

.é certo também, que mesmo após os 365 dias passados, não aprendemos que não podemos ter o controle dos próximos 365 dias e

.como também é certo que as realizações dos desejos não é certa, mas podemos desejar para os próximos 365.

Eu desejo que os acontecimentos nesses dias tragam emoções boas e felizes, e mesmo as não tão boas venham nos ensinar, nos fortalecer, nos revigorar não só para o restante dos 365 dias, como para toda a vida. É o que desejo pra mim e pra você.

Então minha filha gritou satisfeita da janela da sala: "Adeus ano velho, feliz ano novo!"

Só não sei se os vizinhos ficaram satisfeitos assim.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

só se for para enlouquecer







Um tempo atrás, voltava com meu enteado e um amigo não tão próximo dele, ambos por volta de 10 anos na época, de um lugar que eu não me lembro agora, e enquanto caminhávamos, me perguntaram o que era um corno.


Certamente deviam ter ouvido alguém ser chamado assim e não sabiam se era uma coisa ofensiva ou engraçada, já que, dependendo da situação, poderia ser uma ou outra, ou até as duas ao mesmo tempo.


Fiquei sem saber direito o que responder, porque achava que eles não precisavam ter contato tão cedo com assuntos de adultos e se decepcionar com as contradições do mundo de gente grande. 


Respondi de forma mais simples possível para crianças de 10 anos entender e para o assunto não render muito: 
_ Corno é um homem traído.
_ Traído pela mulher dele?
_ E por que que se traí?
_ Por um monte de razões, mas geralmente é porque gosta mais do que encontra em uma pessoa do que na outra.
_ Podiam, então, terminar com uma e casar com a outra.
_ É, podiam.
_ E por que não fazem isso?
_ Ás vezes até fazem, mas nem sempre.
_ Deve ser porque ter duas é melhor do que uma. - respondeu um dos moleques achando isso uma vantagem.
_ Só se for para enlouquecer. - pensei alto.
_ Enlouquecer por quê?
_ Porque aturar uma pessoa  já é difícil, quanto mais duas. Sem falar no trabalho pra esconder a traição.
_ Mas então, por que que se casam se é difícil aturar outra pessoa?
_ E por que traem, se dá trabalho trair?
_ Sei lá, pô! Tem gente que prefere correr o risco.
_ Você já foi corno?
_ Que eu saiba, não.
_ Mas se quem trai esconde que trai, e ninguém nunca te falou que você foi corno, então você pode ter sido também.
_ É... por isso que eu disse: "QUE EU SAIBA, NÃO."
_ E já traiu?
_ Quando era adolescente já. Não tinha muita maturidade...
_ E quando a pessoa trai não sendo mais adolescente?
_ É porque continua sem maturidade.


E a cada pergunta que eu respondia, gerava outras cada vez mais imperguntáveis, como as clássicas: "O que você faria se soubesse que é corno?"; "Se uma mulher toda boa quisesse ser sua amante, você trairia a sua mulher?"; "Você contaria pra algum corno que ele é corno?"; "O que você faria se quem te corneasse fosse o seu melhor amigo?";  "Você continuaria com uma pessoa mesmo sabendo que ela já te traiu?" ...


A palavra "corno" se repetindo a cada 5 segundos por 20 minutos dá uma irritação na testa mesmo de quem não é corno (ou pelo menos acha que não é) então encerrei o assunto:


_ Chega, pessoal! Já respondi o que era um corno, agora vamos mudar de assunto. 


Longe de cooperar, o amigo do meu filho apelou com uma revelação bombástica:
_ O meu pai é corno.
_ Que isso, garoto, ficou maluco? De onde você tirou isso? - perguntei querendo e não querendo saber.
_ A minha mãe já falou na cara dele.
_ Agora chega! Esse assunto acabou.
_ Mas é sério, teve uma vez...
_ Acabou, porra!



sábado, 17 de dezembro de 2011

carnaval esquecível



                  


Nos meus tempos de solteiro, fui uma vez passar o carnaval com uns amigos numa cidade que,  nesta época, virava  uma espécie de Salvador por causa da animação dos trios elétricos, blocos e muita azaração.

Ficamos na casa dos familiares de um dos amigos, que não se importavam com a bagunça que fazíamos, pelo contrário, parecia que casa cheia e barulhenta era o combustível da alegria deles.

Como em todo carnaval, tivemos muitos momentos engraçados e tensos, protagonizados por mulheres ciumentas, bêbados que não sabiam beber, gente que acordava totalmente pintada, histórias de pegações frustradas, e tantas outras que renderiam felizes lembranças se não fosse por um mancha irremovível.

Ocorreu um fato neste carnaval, que tacitamente, todos concordamos em não comentar enquanto vivêssemos. Porém, como a maioria não se vê há anos, e muitos perderam contato completamente, tomei coragem para quebrar o silêncio.

Teve um bloco das piranhas, no qual todos participamos vestidos a caráter e engrossando a massa suada, alcoolizada e ridiculamente engraçada.

Como se não bastasse um bando de homens se esforçando - outros nem se esforçavam tanto, já tinham um dom natural - para imitar mulher, tinha outras excentricidades, tais como fantasias de baianas, ou peitos e bundas de plástico vagabundo, biquinis fio-dental e tantas outras fruto da criatividade dos foliões. 

O mais ousado era um magricelo que vestia uma mini-saia com um mecanismo que ao levantar a saia, apresentava um pênis enorme por baixo feito de papelão, pintado precariamente e mal acabado, o que arrancava muitas gargalhadas do público.

Mas essa não foi a reação da então namorada de um dos amigos que estava por lá: ciumenta a ponto de estar grudada ao namorado até no meio do bloco, ela o largou ao ver aquele falo mal feito.

Em vez de gargalhar como todos, ela fixou seriamente um olhar estranho, hesitou por um tempo, e terminou por agarrá-lo fortemente.

Claro ficou naquele momento, que ela não havia feito o que fez como forma de recriminação por ofensa à moral e aos bons costumes, ao contrário, o que a levou aquele extremo era tão primitivo, que era anterior ao senso de pudor ou moral que hoje temos. Era mais uma demonstração do instinto atropelando valores e conceitos.

A impressão que eu tive foi que, abruptamente, a bateria se calou junto com as pessoas e, todo o planeta silenciou boquiaberto diante daquelas mãos famintas, agarradas animalescamente ao pênis de papelão do rapaz, devassado na sua dignidade.

Um mal estar tomou conta de todos: do namorado dela, do dono do pau, de quem presenciou aquele impulso e dela mesma após se recuperar da  irresistível excitação do momento.

Ninguém nunca comentou sobre o ocorrido, acho que nem o namorado cobrou alguma explicação e até nos esforçamos para nem lembrar daquela cena carregada de constrangimento.

E assim, nosso carnaval foi jogado nas profundezas do esquecimento até esse momento.



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

vovó guerreira

A avó de um amigo, nos seus quase 80 anos ou mais, fez uma coisa que eu nunca imaginaria que alguém nessa idade faria.

Não me lembro se meu amigo quando contou, falou se era manhã, tarde ou noite, quando apareceu uma ratazana na casa dela levando o terror para as mulheres daquela família que gritavam como loucas.

A confusão acabou acordando a pobre idosa que cochilava numa poltrona na varanda. Assustada,  perguntou o que estava acontecendo e lhe contaram que uma ratazana do tamanho de um gato estava dentro de casa correndo de um lado para o outro.

Instantaneamente - até hoje eu tento imaginar e não consigo - a frágil vovó que não ouvia direito, nem enxergava mais como antigamente, que tinha rugas no rostinho curtido pela idade, que se movia lentamente e com dores nas juntas, mudou a expressão de vovó dependente dos parantes, para a matriarca que fora um dia e, num salto, se pôs em pé como o Superman naquela pose de mãos na cintura e a capa tremulando ao vento, e perguntou: "Cadê ela?"

Alguém apontou para o banheiro.

A guerreira anciã, sem desviar os olhos do cômodo onde a indesejada visita estava, pegou sua perna de três que era usada para reforçar as portas das casas antigas, e falou com ar de Charles Bronson: "Deixa ela comigo".

Ignorando as netas e filhas que se jogavam em seu caminho implorando para ela não cometer aquela insanidade, ela entra no banheiro, olha uma última vez para a plateia, antes do combate e tranca a porta.

Os próximos momentos, foi puro suspense, começando por um breve silêncio, seguido por sons de passos arrastados e lentos, interrompidos bruscamente por coisas caindo,  se quebrando, vidros e louças se estilhaçando, porrada seca na parede, grunhidos, tanto da velha como do roedor... e por fim mais silêncio.

Do lado de fora, as mulheres se abraçavam chorando, temendo o pior. No entanto, as mais descontroladas que choravam mais alto ou chamavam "mãe" ou "vó", eram advertidas com gestos impacientes para que fizessem silêncio, pelas outras que não desviavam a atenção daquela porta.

De repente ela se abre, e lá de dentro sai a avó do meu amigo meio despenteada e ofegante, que pára na porta, olha para as mulheres e fala: "Pode tirar o corpo", voltando para sua poltrona enquanto arrumava o cabelo.

E quando perguntei por que aquele viadinho do meu amigo, pelo menos, não ajudou a avó a dar um fim no rato, ele respondeu: "Minha avó é da roça."




sábado, 10 de dezembro de 2011

falando com o Roberto




Um dia desses vi uma mulher falando sozinha.

Claro que já me deparei com milhares de pessoas falando sozinhas antes, afinal tem gente que fala sozinha por mania, por problemas psiquiátricos, psicológicos, espirituais, vontade de aparecer, aposta...às vezes até eu me flagro falando com o Roberto - é o que respondo para quem me pergunta se estou falando sozinho.

Porém, ela me chamou a atenção porque acho que ninguém percebeu que aquela senhora com duas pesadas bolsas de compras, uma em cada mão, caminhando lentamente rua a fora, conversava "naturalmente" sozinha, sem celular, sem fones de ouvidos ou headset... absolutamente sozinha.

Apesar de magoada, tinha a voz tranquila e segura, confiante da sua razão, interrompida pelos intervalos na respiração meio sufocada com o peso das bolsas e da idade.

Isso aconteceu quando eu passeava com o meu cachorro, que entre um xixi e outro, parou num poste próximo dela. Fiquei tão impressionado quando vi que ela não falava no celular, que o cachorro me puxava pra continuar o passeio e eu empacado, acompanhando com os olhos a mulher no seu monólogo.

Na sua ladainha ela reclamava do comportamento de alguém que não trabalhava, que não ajudava em nada, e que ainda por cima era muito mal agradecido... Entretanto, essa pessoa estava redondamente enganada se achava que seria sustentada para sempre, porque ela não era palhaça... Não sei se falava do marido, do filho, de outro parente, do passado, da novela, do trabalho, do cachorro ou de algum blog dela, mas estava desabafando.

Depois dessa mulher, mudei meu ponto de vista a respeito de quem fala sozinho, pois só vi vantagens:

1 - É melhor do que falar no celular, porque não vai depender de crédito de operadora, nem se aborrecer com mensagens de fora de área ou desligado, de sinal de ocupado, ou de toques intermináveis sem ninguém atender, não vai precisar se identificar, deixar recado e nem vai correr o risco de alguém bater o telefone na sua cara;

2 - Não precisa de outro ser humano pra discordar de você , ou fazer fofoca sobre o assunto, ou rir às escondidas, ou julgá-lo, ou não entendê-lo, ou ainda, na pior das hipóteses, até suborná-lo, nunca se sabe;

3 - Não vai precisar guardar consigo seus problemas, suas queixas, suas angústias e mazelas, mas se ouvindo passa a refletir, economizando assim, em terapia e evitando mais problemas de saúde;

4 - Na maioria das vezes, não vai causar estranheza, porque falar sozinho é facilmente confundido com falar ao celular e

5 - Nas vezes em que causar estranheza e te julgarem como louco, pelo menos você sabe que está falando como louco para não ficar louco.

sábado, 3 de dezembro de 2011

coincidências



Não existe nada mais louco do que uma inexplicável coincidência.
Se o mundo não faz sentido, a coincidência está no lugar certo, porque faz menos ainda.
Ela simplesmente acontece sem precisar de explicação ou algo que a justifique, não respeitando tempo, circunstância, distância, dificuldade... ela apenas acontece quando se menos espera.

A melhor que me aconteceu, ocorreu na época que eu tive moto: percebi que o farol da moto estava apagado enquanto trafegava por um túnel e, fui acendê-lo. Porém, no momento em que eu acionei o interruptor da moto - acho que o nome é esse - para acendê-lo, coincidentemente, todo o túnel ficou sem luz.
Instintivamente pensei: "caralho, fiz alguma merda", enquanto, tentava em vão ligar e desligar o tal interruptor na esperança de reacender o túnel.

A mais bizarra que eu me lembro, graças a Deus não aconteceu comigo, mas com um amigo que querendo esticar o horário de almoço, pediu que os seus colegas avisassem no seu trabalho a quem perguntasse,  que ele fora atropelado quando voltava. E surpreendentemente (e por coincidência) o infeliz foi mesmo atropelado quando voltava para o trabalho.

Coincidência todo mundo tem uma pra contar, até porque elas são mais comuns do que parece. Às vezes é uma pessoa que chega ou liga, no momento que se fala dela, outras vezes é ter em dinheiro exatamente a quantia que se precisa para comprar o que se quer, ou encontrar alguém em uma festa com a roupa igual a sua, e tantas outras felizes, catastróficas, insignificantes e esquisitas coincidências.  

Há quem diga que ela é uma prova da existência do destino e de  Deus, anulando o simples acaso. Ao mesmo tempo, que prova para outros a existência apenas do simples acaso, anulando destino e Deus.

Independente do que ela prova, é um fenômeno que não é exclusivo do ser humano, mas que vai muito mais além, englobando desde minúsculas partículas de qualquer coisa até galáxias desconhecidas, formadas, coincidentemente, por condições ideais.

Mas para driblar a toda-poderosa coincidência da vida, escrevi essas coisas, não por acaso, mas consciente que é para você ler.

Talvez seja o destino, ou Deus ou a falta do que fazer mesmo.