quarta-feira, 5 de junho de 2013

blog do Baltazar: leite condensado

blog do Baltazar: leite condensado: Percebi que a mulher do caixa do supermercado fazia seu trabalho com eficiência só pra me irritar. Faltou apenas a gargalhada do ma...

leite condensado




     Percebi que a mulher do caixa do supermercado fazia seu trabalho com eficiência só pra me irritar. Faltou apenas a gargalhada do mau que ela deve ter lutado para abafar, enquanto passava as compras o mais rápido que podia.

     Não sei se ela se divertia mais fazendo o visor da máquina registradora, que ficava estrategicamente na minha cara, aumentar o valor progressivamente com o frenesi dos itens passados, ou se com a montanha de compras que a desgraçada formava pra me desafiar a ensacar tudo na mesma velocidade. A essa altura, eu me desesperava dividido em abrir o maldito saco que foi feito pra não abrir e o pensamento positivo para o valor das compras não extrapolar o determinado.

     Sim, ela estava de sacanagem com a minha cara. Isso ficou claro, quando ela percebeu que eu pretendia colocar um saco só com caixinhas, outro só com vidros, outro só com sacos, outro com frios, produtos de limpeza... Eu via na cara dela o prazer de misturar a porra toda só pra me enlouquecer.

     Quando por fim eu começava a me encontrar, ela me desestabilizava maquiavelicamente com a pergunta: "Meu amor, posso empurrar esse montinho pra lá?" Perguntou isso apenas pra eu ver que já tinha outra montanha se formando, enquanto eu ainda lutava para abrir outro saco poluidor do meio ambiente. "Já vou te ajudar, tá, meu bem?!." Mas a intenção dela não era de ajudar ninguém, queria tão somente me mostrar que eu precisava dela, da sua eficiência, da sua agilidade, que sem ela eu nunca sairia dali...

     "Não precisa não, já estou terminando." Respondi  orgulhoso, apesar de não estar nem perto disso, só pra mostrar que eu dispensava a sua extraordinária agilidade. "Vou te ajudar sim, tá, querido,espera só um pouquinho." Com isso, não restou mais dúvidas.

     Ficamos em silêncio, cada qual com sua função, se hostilizando. Eu pensava comigo: "Não vou virar piada de caixa pra ela contar para as amigas na hora do intervalo. Onde será que desliga essa filha da puta?" E ela devia pensar também:: "Coitadinho, todo enrolado..."

     Depois de ler os seus pensamentos, pra não tacar uma lata de leite condensado na cabeça dela, eu resolvi acabar com o joguinho: "Você só pode estar de sacanagem!"

     "Por quê, meu bem? Tô rápida demais pra você? Então vou parar um pouquinho pra te ajudar."

     E ajudou, mas usando a inocente da minha mulher - minha própria mulher - pra fazer coro ao ódio dela por mim, dizendo que homem não tem jeito pra essas coisas, que somos muito moles, que não aguentamos dor, que gememos com o menor resfriado, que não sobreviveríamos à depilação, a parir ou cuidar dos filhos, que na próxima encarnação queria vir homem porque trabalhariam menos...

     Quando estávamos indo embora, nos despedimos, e ela respondeu: "Tchau, linda." - pra ficar claro que não falava comigo.

     Antes se eu tivesse tacado a lata de leite condensado na testa dela.



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