quinta-feira, 31 de maio de 2012

virgem aos 40




Quando eu fiz 5 anos, minha madrinha me deu um relógio de criança com o Dunga da Branca de Neve marcando as horas com os braços. Eu achava o máximo ser criança e ter um relógio que marcava hora de verdade que nem de adulto.

Minha mãe não me deixou usar, porque eu podia quebrá-lo e porque, obviamente, eu não sabia ver as horas naquela idade.

Ele ficou guardado na gaveta de coisas importantes do meu pai por anos, sempre que eu precisava mexer lá por algum motivo e o encontrava, começava o ritual de tirá-lo da caixinha, cheirá-lo, colocá-lo no pulso, e tratá-lo com maior carinho e respeito, afinal era o meu relógio "de verdade" que minha madrinha me deu. 

E foi por causa desse cuidado todo, que naquela idade eu decidi só usá-lo quando tivesse 15 anos que, na cabecinha inocente de quem tem 5, já é um adulto que além de saber ver as horas, já podia usar o relógio sem risco de quebrá-lo.

Quando me dei conta, já tinha os 15 anos e usar aquele reloginho de criança estava fora de questão, acho que nem fechava mais no meu pulso.

Hoje me lembrei dele. 

Se ele ainda existir, acho que vou guarda-lo na minha própria gaveta de coisas importantes, pra quando me reencontrar com ele por acaso, recomeçar o antigo ritual de quando eu era criança, porque hoje eu acho o máximo ser adulto e ter um relógio de criança que marca hora de verdade, que nem de adulto.

terça-feira, 29 de maio de 2012

impossível interromper






Indo para o dentista, por volta das 16:30h, vi um casal se beijando na calçada da movimentada av. Rio Branco, em meio ao caos do centro da cidade naquele horário. Se beijavam tão bonito que desconfiei que pudesse ser uma pegadinha.

Cena digna de novela ou final de filme romântico: casal abraçado, num beijo longo e apaixonado, com os carros passando desfocados no fundo e as pessoas lançando olhares meio indiscretos sobre eles.

Enquanto me distanciava, fiquei pensando que um beijo daquele, com tamanha determinação, não era um cumprimento entre casais, mas dado apenas em momentos especialíssimos, casos de vida ou morte.

Se não fosse pegadinha, talvez seria uma reconciliação de alguma merda que ela fez, e ele passando por cima do seu machismo e orgulho, resolveu perdoá-la naquela hora. Não acho que pudesse ser o contrário, ele ter feito uma merda e ela perdoado, porque elas nunca perdoam completamente, e em vez de beijo apaixonado, eu veria no centro da cidade uma cara fechada, braços cruzados e um severo "que isso não se repita de novo".

Poderia ser também, um pedido de casamento em que ela ficou feliz por ter recebido e ele porque ela aceitou - mas as 16:30h na Rio Branco?? Não que seja impossível, mas muito improvável.

Mais provável que fossem amantes e estavam terminando o relacionamento porque já estavam colocando sentimento demais numa relação que não teria muito futuro. Ou porque estavam dando futuro para a relação que foi promovida a "casamento", num ato corajoso de largarem seus respectivos cônjuges.

Quem sabe ainda, reviviam a paixão inesquecível de outros tempos que, não sei por que cargas dágua, o mesmo destino que os afastou por anos, naquele momento os aproximava mais uma vez.

Pensando nessas possibilidades, cheguei no prédio do meu dentista. Antes de entrar, porém, dei um última olhada para trás e eles ainda se beijavam, num grude que faria muita gente chamar de "pouca vergonha".

Talvez eu tenha acertado o motivo do beijão com uma das minhas suposições, entretanto, certeza mesmo eu só teria se perguntasse direto pra eles.

Mas era impossível interromper aquela "pouca vergonha".




sexta-feira, 18 de maio de 2012

o fim do mundo







Estava pensando no fim do mundo que já tem até data marcada, se não me engano é dia 21/12/2012.

Por mais que se acredite ser outro alarme falso, fica sempre uma expectativa no ar, como aguardar o resultado do exame para aids, mesmo você não sendo do grupo de risco.

 Mas vai que o mundo acaba mesmo. Ainda que seja trágico, é melhor morrer todo mundo junto, do que sozinho ou com meia dúzia de gatos pingados.

Pior sobreviver num mundo semi-destruído. Já estamos acostumados a viver sem saúde, saneamento básico, transporte, alimentação, educação... mas ficar sem internet, televisão, geladeira, ar condicionado, água na descarga... não há sobrevivente que sobreviva.

Se fosse certo do mundo acabar no tal dia marcado, acabariam antes as barreiras que impedem as pessoas de serem ou fazerem o que realmente querem.

Assim, muitas verdades inesperadas seriam ditas, armários inrustidores seriam destroçados, muitos patrões entrariam na porrada, muitos ex-amores ressuscitariam, muitos perdões concedidos e outros retirados, dietas quebradas, religiosos se entregariam ao pecado, pecadores se entregariam às religiões, gente pelada correndo pela rua, amores platônicos revelados, cornos nascendo a cada segundo, promessas não cumpridas teriam seu esperado cumprimento, políticos seriam brutalmente assassinados, sogras também entrariam na porrada...

E no momento em que a onda gigante que vai engolir o Cristo Redentor chegasse, ou o chão abrisse fendas infinitas que engolisse a todos, ou o meteoro se chocasse contra a Terra, ou larvas incandescentes fossem expelidas dos bueiros, ou três godzillas aparecessem, ou o raio que nos parta nos partisse... todos estariam satisfeitos, cantando: "Pode vir quente que eu estou fervendo. Pode vir quente que eu estou fervendo."



quarta-feira, 2 de maio de 2012

a primeira pessoa do mundo







_Papai, quem foi a  primeira pessoa que existiu no mundo?

Pensando numa resposta que satisfizesse uma criança de 6 anos, respondi:

_Foi Adão que Deus fez do barro, que depois deu vida e uma namorada chamada Eva.


_Eva??? que nome feio... nesse tempo já tinha dinossauro?


Antes que eu tentasse responder essa confusa questão, ela me vem com mais esta:


_A tia na escola falou que os homens das cavernas foram as primeiras pessoas do mundo. Foram eles ou foi  Adão? - na cabecinha dela, essa resposta deve ser conhecida por todos os adultos e simples, tipo: "foi fulano."


Procurando uma resposta, lembrei de uma aula de Filosofia, em que o professor dizia que crianças querem só respostas, independente de fazer sentido ou não.


Podia usar essa estratégia e acabar ali o assunto falando que Adão era um homem das cavernas criado por Deus, amigo dos dinossauros e inimigo da serpente, que de vez em quando acertava Eva na cabeça com uma sarrafo e a arrastava pelos cabelos como prova de amor.


Apesar de não ser a verdade, evitaria outras explicações, pois se eu dissesse que foi Adão, fatalmente teria que explicar onde foram parar os homens das cavernas, e se eu dissesse que foram os cavernosos, teria que explicar por que não foi Adão, já que ele foi feito por Deus.


Porém, minha índole não é mentir. Mas dizer pra ela que acredito e desacredito nas duas teorias não mataria sua curiosidade...O correto a fazer era dizer que não sabia, principalmente porque eu não sei mesmo. Mas preferi responder sem responder:


_ Tem gente que acredita que foram os homens das cavernas e outros acreditam que foi Adão.


_ Mas quem foi?


O impasse agora era meu, que me senti pressionado por Deus, como se ele estivesse também querendo saber de que lado eu estava, já que uma teoria anula a outra.


Fica difícil sustentar a história de Adão, com tantas evidências da pré-história nos museus, nas escolas e até nos desenhos que ela assiste com dinossauros em todo lugar. Por outro lado, não posso simplesmente, dizer que Deus não existe, pois perderia o sentido o "Dorme com Deus e sonha com os anjinhos", "Papai do Céu está vendo",  "Vai com Deus" 
e tantas outras frases que envolvem Deus, além de ter que explicar onde as pessoas boas vão morar depois que morrem se não tiver mais Céu. 

Tirar isso dela, mataria a magia, o encanto, e deixaria a vida bem sem graça. Seria como dizer que Papai Noel não existe.

Por fim, pra ficar bem com Deus, com a ciência, minha consciência e minha minha filha, respondi que não sabia quem foi a primeira pessoa do mundo e que ninguém sabe. Aí ela me respondeu que Papai do Céu deve saber.


_ Com certeza.


Pronto, respondido.


sexta-feira, 23 de março de 2012

merda!



 


Um amigo me contou que foi a um open house de um conhecido rico dele que não teve um final muito bom.

Disse que o anfitrião estava superfeliz pela aquisição da casa de três andares, vários cômodos espaçosos, decorada com luxuosa mobília, piscina, churrasqueira e jardim exuberante com design futurista, num condomínio chique e num bairro igualmente chique.

Mais feliz ele estava ainda por poder exibir tudo isso para todos os presentes, entediando cada grupinho de convidados em que parava, contando a origem de cada objeto da decoração, curiosidades,  motivo da escolha e preço. Sem falar nas fotos e souvenirs dos países que conheceu, onde comeu, o que visitou, onde se hospedou e quanto gastou. Quando resolvia impressionar outro grupo, trazia grande alívio ao grupo anterior que era dispensado com um desatento com licença.

Com o decorrer da festa, meu amigo que estava com sua esposa, já cansado de comer canapés sofisticados e beber bebidas caras, precisou ir ao banheiro. E nessas horas, pouco importa se o banheiro possui mármores carrara, porcelanatos de outro planeta, torneiras de ouro, ou se é um banheiro mal cheiroso de botequim.

Porém, como em toda festa, outras pessoas tiveram a mesma idéia ao mesmo tempo, lotando a porta do wc social do living room.   

Mas a sorte do meu amigo mudou quando encontrou no terceiro andar, outra fila menor para o banheiro. E melhorou mais quando duas garotas privilegiadas pela beleza que a idade e o dinheiro davam, ficaram imediatamente atrás dele na fila.

Para parecer um coroa descolado para as meninas, estufou o peito, encolheu a barriga e fez um sorrisinho meio sensual, o que segundo ele, chamou a atenção de uma delas que "não parava de me olhar".

Quando se deu conta, já era a sua vez.

Depois que começou a fazer suas necessidades, lembrou que, fatalmente, deixaria o banheiro com um odor nada agradável para as meninas, e que não adiantaria colocar a culpa em outra pessoa ao sair, pois a fila andou muito rápido, dando a entender que todos na sua frente apenas urinaram.

A única saída que viu era agir rápido para parecer que urinou demoradamente, ou fez o número dois rapidamente, afinal, nesse caso, melhor a dúvida do que a certeza.

Então, pôs o plano em prática fazendo tudo numa velocidade inacreditável. Num salto, já estava vestido, dando descarga e já lavando as mãos. Antes de sair porém, resolveu se certificar do sucesso do seu plano e abriu a tampa do vaso. Merda! Tinha uma teimosa que não acompanhou as amigas.

Insistiu em dar outra descarga, mas a caixa acoplada demorava a encher... "e aquele anfitrião filho da puta se gabando de ter tudo do bom e do melhor e com essa merda de descarga."

Quando finalmente a caixa acoplada encheu, deu outra descarga, mas ela continuava lá. Repetiu a operação de novo, de novo e de novo... mas ela ainda continuava lá.

Pensou em sair do banheiro e deixar aquele problema para o próximo resolver, mas os próximos seriam as meninas bizzarramente lindas, que nunca fizeram coco, ou tiveram meleca, remela ou suor. Não, não podia, de jeito nenhum...

Nessa altura, constatou que as meninas já sabiam que ele não estava apenas urinando. Imaginou elas entrando no banheiro, abrindo a tampa do vaso e dando de cara com aquela merda, sabendo que ele quem fez, que saiu dele... Sentiu um pânico carregado de vergonha e raiva que lhe fez chorar sentado na privada esperando mais uma vez a porra da caixa encher.

O som da água enchendo a descarga parou. Meu amigo levantou-se da privada, liberou a água da caixa e ficou acompanhando, esperançoso, o seu excremento lutando para não sumir no rodamoinho barulhento... expectativa...no fim, lá estava ela rindo dele, zombando dele, mostrando que ela conseguia envergonhá-lo, sua própria merda...

Num surto psicótico, ele deu um grito assustador de desespero, que certamente foi ouvido pelas meninas do lado de fora, agarrou a merda na mão, estendeu o braço, para fora do basculante com vista para o mar, e a soltou.

Depois de se recompor, acalmou a respiração, lavou as mãos, enxugou o suor da testa e saiu do banheiro sem olhar para os lados, sabendo que todos o fitavam perplexos com a gritaria que fez, mas sem nada questionar.

Ao descer encontrou os convidados agitados num burburinho, e sua mulher veio ao seu encontro com os olhos arregalados tentando explicar o que aconteceu, quando foi interrompida pelo próprio anfitrião que passou por eles chorando, amparado por outras pessoas, sujo de coco na cabeça e na camisa branca de grife, gritando: "Eu só chamei amigos para dividir comigo minha felicidade, e olha o que fizeram, meu Deus..."

Disse ele que, mesmo diante do mal estar que se formou, riu descontroladamente, e ri de chorar sempre que conta isso pra alguém.

terça-feira, 6 de março de 2012

feitos pra andar


Sempre achei voar o máximo.

Tenho inveja dos urubus e gaivotas que voam imponentes lá no alto, vendo tudo a seus pés e o infinito acima deles, não se importando com altura, com distância, alheios ao caos do mundo dos que pisam nesse chão. Fico imaginando a delícia de sensação  de dar uns rasantes, ter o céu inteiro para explorar, voar rápido, devagar, planar, chegar em locais que ninguém jamais vai chegar de outra forma.

Mas não me agrada a idéia de ter asas que nem os anjos porque seria bem incômodo esbarrá-las em todo lugar, fazer um buraco para elas nas camisas, jaquetas e cia., soltar pena, tomar cuidado pra não quebrá-las, queimá-las, sujá-las, dormir com aquelas porras nas costas então...

As asas dos morcegos são menos incômodas, já que não ficam nas costas, porém perderíamos as mãos, pois, pra quem não sabe, a asa é um prolongamento dos braços e dedos do animal.

Já asas de insetos que se recolhem, como os besouros, são mais úteis, entretanto voar com 4 asas batendo milhares de vezes por minuto me passa um desgaste, um cansaço só de pensar, seria mais um vôo apressado, nervoso, tenso, sem prazer, sem poesia... uma merda, melhor rastejar.

Voar sem asas pode ser a solução, mas que nem o super-homem com os braços estendidos pra frente e uma perna ligeiramente flexionada, nunca me encantou, aliás qual a razão dessa pose? Muito artificial.

Tem também o voo dos fantasmas, que, diferente do super-homem, é mais natural, com mais leveza, porém sem controle, limitado e fantasmagórico (obviamente), lembrando mais um saco plástico impulsionado pela brisa.

Peter Pan estaria mais próximo do que imagino, se não fosse a indiferença dele quando voa, como se fosse fácil e sem importância. Banal como piscar os olhos.

O ideal, pra mim, é que seja um vôo parecido com o nadar das arraias e das tartarugas,  com menos resistência, menos atrito, deslizando mais, para se ter toda liberdade no ar para mergulhar, girar, dar cambalhotas, subir, descer, ficar de costas, de cabeça para baixo... teria que ser antes de tudo, um lazer.

Pra isso, a gravidade não poderia ser tão severa, aliás, que exagero esse rigor  pra manter as coisas no chão, como se tudo quisesse fugir do planeta na primeira oportunidade. A gravidade poderia ser mais light deixando as coisas como que em slow motion, sem pressa, possibilitando admirar a beleza de qualquer coisa que caia, quebre e exploda.

Complicados que somos, trocaríamos os nossos vôos pessoais por uma carona em algum avião, usando como desculpa o cabelo que ficaria desarrumado com a velocidade, ou o frio que faz em algumas altitudes, ou os insetos que se esborracham na nossa cara, ou a mesma preguiça que nos impede de caminhar hoje em dia.

Aí voar já não seria liberdade, mas retrocesso, algo primitivo e antiestético, e voltaríamos a andar, pois pra isso que fomos feitos.

Nos restando apenas admirar os urubus e gaivotas, que despretensiosamente, dão um show.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

paixão doentia



De manhã quando acordo, ela já está em cima. Quando vou dormir, está à minha espera na cama, sedenta e ansiosa.

Luto em vão durante a noite para resistir às suas insaciáveis investidas, que me cansam sem chance de descanso.

Me persegue pela casa, em cada cômodo, a qualquer hora, obcecada por mim.

Louca, sobe pelas paredes, se pendura no ventilador de teto e paira sobre mim faminta.

Quando finalmente me tem, gruda sua boca em mim com delicadeza e discrição, sem se importar com a humilhação de, às vezes, eu nem percebê-la, xingá-la ou tratá-la com violência física.

Sem respeito próprio, se submete a essa agressão moral, porque não controla o desejo pelo meu corpo, da testa ao dedão do pé.

Depois de satisfeita, vai e deixa sua marca para eu lembrar dela. E, sempre que lembro, tenho vontade de tê-la nas mãos e esmagá-la.

Seria melhor para todo mundo se ela fosse como o macho da espécie dela, que se alimenta de seiva das florezinhas, mas as fêmeas de aedes aegypti gostam mesmo é de sangue quente.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

nos fundos, somos todos iguais



Quando uma pessoa é chata, recebe logo alcunhada de "pentelho". Tais pelos, além de se tornarem sinônimo de pessoa inconveniente e criança bagunceira, também exprimem algo desprezível e sórdido.

Mas esses pelos não se resumem a um chumaço de cabelo duro, inútil e com má fama, porque há quem enxergue neles grande fonte de desejo sexual, utilidade para proteção e aquecimento natural dos genitais, desde que estejam no lugar que deveriam estar e não encontrados nos alimentos.

Porém, são bem mais do que isso, são talvez uma forma de "castigo" ou "benção" de Deus, que os colocou em todo ser humano, rico ou pobre, feio ou bonito, bom ou mal (menos algumas tribos indígenas, sei lá porquê) para mostrar, quem sabe, que nos fundos, somos todos iguais.

Pode ser também uma espécie de placa de sinalização para alertar sobre o cuidado que se deve ter com o que eles envolvem com tanto excesso, que quando usado irresponsavelmente, a vida do irresponsável fica tão enrolada quanto eles.

Grande problema hoje em dia é tê-los, as mulheres que o digam, pois preferem serem torturadas com cera quente e arrancá-los em seguida, a ter que aceitá-los.

Mas quem tem mais razão em extirpá-los do corpo são os homens, principalmente quando ocorre uma ereção fora de hora com tudo embolado, não restando nada a fazer a não ser se curvar e  implorar pra morrer.

Graças a eles, filmes de décadas anteriores brilharam, onde a ousada figura triangular nas mulheres era entendido como "completamente" nua.

Há quem curta esses caras e ainda brinquem com eles, se depilando de forma a deixar um bigodinho de Chaplin, um coraçãozinho, alguma letra do alfabeto, um jogo da velha, o nome da mãe, uma santa cruz... até os menos preocupados, chegados ao natural, que criam verdadeiros gorilas por opção.

Os adeptos dessa arte devem sofrer tendo que se contentar em mostrar sua "obra" para poucas pessoas, com exceção daqueles que acabam ignorando o alerta falado no 4º parágrafo desse post, e acabam mostrando além do que deveriam e, fatalmente, se enrolando tanto quanto a "placa de sinalização".


O que mais surpreende é que todos, dos que odeiam, aos que amam os tais pelos, incluindo você que está lendo isso agora, todos, sem exceção, já tiveram a auto-estima reafirmada na puberdade com o nascimento dos primeiros fios.

Por isso, pense neles com mais carinho, não os considere uma praga, a não ser que tenham hospedeiros neles.

E deixa de ser pentelho.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

"vai se esfregar na sua mãe"

                 
                      



Eu uso metrô sempre que posso, e não sei se é uma benção ou uma maldição precisar dele, sei apenas que a condição humana é testada ao extremo em algumas viagens.

Começando pela intimidade, em que as pessoas procuram fixar a atenção nos detalhes da parede ou do teto do vagão, nos anúncios, avisos, ou em qualquer coisa que evite cruzar o olhar com outra pessoa. E essa preservação persiste até no suplício dos vagões lotados nos horários de rush, mesmo a poucos centímetros da boca de outra pessoa, ou já em contato físico com as várias partes dos corpos ao seu redor, inclusive áreas erógenas, além da respiração, axilas, espirros, tosses e peidos alheios, que algum filho da puta sempre solta nessas horas.

Acho que ninguém se olha pra não dar inicio a um exótico bacanal com diferentes raças, idades, credos, tipos físicos, status, gêneros...

Mais incrível é que tem gente que reclama e até briga por causa da proximidade. Porém, para brigar, só se os braços já estiverem para cima, pois do contrário, é impossível levantá-los no bloco sólido, inabalável, estável, que se forma com a lotação. Briga só de cuspe.

Aliás, desentendimentos são muito comuns, as queixas variam muito, mas na maioria das vezes é sobre a truculência dos outros passageiros.

Meu amigo me contou que uma senhora quase jogou sua esposa no chão quando eles seguiam para o trabalho. Depois de reclamar, a esposa do amigo ouviu daquela senhora, em alto e bom som, pronunciado com as sílabas sarcasticamente separadas, um malcriado "PO-BRE-MA".

Também já presenciei esses barracos entre duas mulheres de salto alto, bem arrumadas, cabelos leves e com balanço e que sabiam pronunciar "problema" corretamente, que se xingavam como crianças de CIEPS.
.
Quase fui linchado uma vez, quando ao descer na minha estação, uma retardada que deveria esperar as pessoas saíram para entrar, me empurrou de volta para o vagão, acabando por embolar a alça de sua bolsa no meu celular preso na cintura - isso já foi moda.

Para não perder o aparelho, eu tive que puxar a bolsa para soltá-la. Mas a mulher não entendeu assim e começou a gritar achando que eu a estava roubando. Ainda bem que eu consegui soltar o celular e pular fora do vagão antes da porta fechar.

Outro dia um cara queria brigar com outro porque ele estava perto demais da sua namorada. O rapaz acusado e mais fraco, para evitar que a situação piorasse, fez coro aos pedidos da namorada do outro perguntando se ele estava pensando na tensão e desespero dela, caso eles "se embolassem na porrada" - palavras dele. Com isso, não houve briga e o rapaz continuou "amigavelmente" atrás da namorada do outro.

Para ser acusado de tarado, basta ser homem. Soube de outro amigo que passou a maior vergonha  porque uma mulher começou a gritar para ele se esfregar na mãe dele, e ele nem gosta da fruta.

Ainda tem a estação de "transferência para linha 2 e trens da Supervia" que contraria a Teoria da Evolução de Darwin, pois as pessoas atropelam velhos, crianças, grávidas, cadeiras de roda, polícia, bandido, Deus, a própria mãe deles... tudo que tiver na frente, um verdadeiro estouro da boiada louca.

Nunca vou esquecer a primeira vez que eu presenciei isso, que por azar estava na porta de saída deles, e fui arrastado por alguns metros do vagão que estava até conseguir sair pela lateral da correnteza. Mas outras pessoas não tiveram a mesma sorte e sumiram naquele tsunami cruel que ignorava os seus desesperados pedidos de socorro e braços estendidos para quem estava no vagão, que nada podiam fazer a não ser rezar por eles. Só de lembrar, meu coração dispara e começo a tremer.

No metrô, já vi bêbados ridículos falando merda, casais apaixonados quase acasalando, gente fofocando sobre colegas de trabalho, cornos se lamuriando, tarados fotografando mulheres distraídas, azaração homo e heterosexual, já assisti aulas de direito, administração, conversas calorosas sobre futebol, big brother, política e claro, o próprio metrô.

Apesar desse cataclismo, continuo utilizando esse hospício móvel porque toda essa tortura dura menos do que duraria em outro transporte e porque ainda não presenciei ninguém cagado, ainda.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

condenado pela evolução



Pra que que serve o dente siso, senão para levar dor e sofrimento a quem o tem?

É um dente que levanta desconfiança por nascer muito depois do tempo, acabando com a paz da boca que já está lotada com seus 28 residentes, e ele ainda traz consigo até três comparsas, na maioria das vezes.

Os outros dentes, sem alternativa, se apertam para caber os encrenqueiros, facilitando a criação de cáries entre eles, fora os problemas que ele pode trazer antes mesmo de nascer, lembrando o filme de terror "O Bebê de Rosemary".

Como alguém suspeito, ele se esconde nas trevas,  no fundo da boca, exigindo que a mesma se abra num ângulo próximo dos 90° para caber as duas mãos quase que inteiramente, para poder limpá-lo com fio dental.

Um dente sinistro como esse, só pode ter prazer em infringir dor, e faz isso como ninguém, desde seu nascimento até sua extração, principalmente,  e no intervalo entre uma coisa e outra, quando resolve doer.

Condenado pela evolução, onde sua origem na pré-história fazia sentido para o homem das cavernas que precisava de reforço na dentição para a sua dieta de carne crua, ele insiste em nascer por pura maldade, já que o homem moderno não precisa mais fazer tanta força para mastigar.

Com isso, concluo que, apesar das dores dilacerantes, inchaços, dietas escrotas, compressas de gelo, analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos, oriundos da extração desse maldito, estou passando por toda essa tortura desnecessariamente, por culpa da incompetente evolução que não me incluiu nos seus planos.

E eu nem sou tão carnívoro assim.








domingo, 22 de janeiro de 2012

de boa intenção o porteiro está cheio





O que seria da vida dos moradores dos prédios sem os bem intencionados e dedicados porteiros. 

Homens simples, que na maioria das vezes sabem tudo de esportes, cultura, política, religião, metereologia, história geral, do Brasil, do bairro, da rua e do morador. Alguns sabem apenas o último assunto.

Mas longe de ser uma coisa negativa, a dedicação ao morador é um zelo louvável.

O porteiro do meu prédio, um coroa gente boa que tem seu próprio dialeto, é um bom exemplo de ser humano cheio daquelas boas intenções do ditado.

Para provar que é homem dedicado, que não está desperdiçando o dinheiro do morador, ele acorda 5 horas da manhã diariamente, batendo portas, deixando coisas barulhentas caírem e arrastando os passos por onde quer que vá.

Trazendo um pouco de cultura e fé aos moradores, ele assovia sempre que pode  "Asa Branca", exceto quando está ouvindo no último volume um radinho numa estação evangélica.

Ele pensa na segurança do prédio quando abre a porta do elevador pra ver quem está dentro, mesmo sabendo que o elevador leva quase um século para fechar a porta de novo, isso quando não cisma de conversar com quem está dentro, mostrando assim a sua simpatia.

Zelando pela minha imagem e reputação, me conta, sem eu perguntar, quem entrou ou saiu da minha casa na minha ausência, desde a minha sogra até entregadores do petshop, supermercados, locadoras de vídeos... inclusive a hora.

Quando quer saber pra onde eu vou quando estou saindo, ou de onde estou vindo, faz por preocupação quase materna, afinal, o mundo anda muito violento...

Sua solidariedade comove a todos, exceto a síndica que mandou arrancar os pés de feijão que ele plantou no jardim, entendendo que alimentação é mais importante do que a inutilidade do paisagismo. 

Seguindo à risca a máxima "pra que deixar para depois o que se pode fazer agora", ele acorda a gente pela manhã tocando a campainha impacientemente para entregar correspondências que podem ser entregues a qualquer hora do dia.

Com tantas tarefas para um ser humano fazer durante o dia, fica fácil entender os recados deturpados que ele dá, como o dia que ele garantiu que não faltaria água, contrariando uma semana de avisos colados nas paredes do prédio, e que terminou por minha mulher e filha ficarem cheias de espuma na cabeça dentro do box e sem água para se enxaguarem no banho.

Reparei que, apesar do grande coração que ele possui, ninguém o cumprimentava com aperto de mão e passei a fazer isso. 

Porém, o gesto ficou banal depois de se repetir sempre que nos víamos, às vezes com pequenos intervalos de ir e voltar na padaria ou coisa parecida. Entretanto, não foi por isso que o cumprimento se extinguiu, mas depois de ocorrer imediatamente depois de limpar o suor da testa ou assoar o nariz.

Apesar de tudo, se ele fosse o porteiro perfeito - se é que existe - sentiria falta das suas trapalhadas, o prédio seria mais triste e eu não teria ninguém pra dizer quem esteve na minha casa na minha ausência.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

todo mundo é um pouco maluco




Ontem entrei no prédio com minha filha e mais uma vez apostamos corrida da porta até o elevador, pisando apenas nos quadrados pretos do piso xadrez da portaria.

Essa brincadeira se repete, praticamente, desde quando ela aprendeu a correr, e sempre que está de bom humor.

Parece mania de criança, mas já me flagrei só pisando nos pisos pretos ou só nos claros da portaria, ou usando degrau sim, degrau não da escada, prendendo a respiração no elevador até chegar no meu andar, ou me equilibrando nos canteiros estreitos que cercam algumas árvores nas calçadas...

Algumas dessas manias são até úteis, como apostar corrida com as pessoas na rua quando estou com pressa, acaba diminuindo o atraso.

Isso, claro, sem elas saberem.

Do contrário, vira uma guerra de nervos, como ocorreu no dia em que ultrapassei um pirralho com uniforme de escola, que não satisfeito, tomou a frente novamente. Eu como adulto, apelei para minha condição e mostrei para ele o que uma perna maior é capaz de fazer, e o deixei pra trás novamente.

Mas subestimei a obstinação infantil que fez o moleque me alcançar e sorrir desafiadoramente, como quem diz "eu que vou ganhar".  E ganhou, mas só porque eu me deixei vencer pela vergonha de me imaginar correndo pela rua com um garoto no meu encalço, aquela peste.

Quando eu me dava conta que fazia essas coisas, me passava pela cabeça que eu tinha algum transtorno, já que eu não era mais criança para justificar essas doidices - como diria a minha avó.

Até que um dia, aconteceu o que eu mais temia:  eu caminhava de olhos fechados da minha porta
até o elevador no corredor do meu andar, e um vizinho ninja apareceu sem fazer barulho, me surpreendendo com a pergunta "Tá tudo bem?"

Hiper-mega-super (usando o palavreado da minha filha) sem graça, tentei disfarçar o indisfarçável, dizendo que... nem lembro o que eu disse..

Compadecido com o meu constrangimento, meu vizinho interrompeu minha tentativa de explicar aquele sei lá o quê, me dizendo que ele uma vez foi surpreendido pela mulher quando também andava de olhos fechados.

Foi aí que eu vi que todo mundo é um pouco maluco.

Com o tempo ouvi pessoas que confessaram que também não pisavam nas pedras portuguesas pretas do calçadão de Copacabana, ou evitavam a todo custo as linhas que separam um piso de outro, outros esmagavam folhas secas sempre que podiam, que se apoderavam de irresistíveis gravetos das ruas ou na mão de outros maníacos,  gente que conta  degraus quando sobe escada,  que a cada passo, vai separando sílabas de palavras, que marcam o ritmo de alguma música batendo os dentes ... são tantas que me sinto até normal com as minhas. Tem até gente que chupa roda molhada no varal.

Além do plástico bolha, que eu nem preciso falar.

Acho que essas pequenas manias não chegam a ser um transtorno obsessivo-compulsivo, mas a criança dentro da gente dando sinal de vida e querendo brincar.

E, sinceramente, a falta de explicação para essas manias é só mais uma coisa sem explicação nesse mundo inexplicável.

O que importa mesmo é satisfazê-las, para ter a deliciosa sensação "eu consegui", que aquele pirralho que eu deixei ganhar a corrida teve no meu lugar, aquele viadinho.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

facebook do inferno



Depois de uma resistência típica dos idosos turrões às maravilhas tecnológicas do mundo novo, fui obrigado a me render ao Facebook.

Ainda torço o nariz para isso, mas fiz por amor a este blog que me dá tanta alegria sem reconhecimento (nem comentários os ingratos leitores postam). Tudo porque me disseram que o Face - para os íntimos - é ideal para divulgar esse tipo de coisa... enfim, tamos aí.

Confesso que estou assustado, muito assustado: logo depois que eu fiz minha conta e fui "aceito" pela minha mulher, milhões de pessoas saltaram com seus sorrisos, corpos sarados, cônjuges e famílias felizes, filhos, cachorros, paisagens... um mundo de esquisitices diante de mim me convidando: "venha, junte-se a nós e seja feliz para sempre."

Pensei em voltar atrás, mas já era tarde, já tinha sido aceito e convidado por outras pessoas, ficando preso a uma interminável teia de amigos dos amigos dos amigos dos amigos que saltavam à minha tela com seus sorrisos simpáticos e se multiplicando à medida que eu piscava ou respirava.

Como se não bastasse essa epidemia, ainda tinha as tais sugestões de amizades com todo o planeta.

Me senti como se estivesse chegando num animado churrasco com conhecidos no bar, na piscina, na entrada, na escada, no meio do caminho, no banheiro, na churrasqueira, conversando em meio ao som alto, sobre política, novela, trabalho, religião, lembranças, futebol, fazendo fofoca, piada, rindo, chorando, brigando, paqueirando, em grupos, separados... como seu eu fosse o último chato  capturado pelo mundo dos sorrisos eternos e com um policial expondo a minha cara para os fotógrafos.

Então, começaram os conflitos: Será que estou ferindo alguma etiqueta ou regra se eu optar por "agora não" em vez de "confirmar" as solicitações de amizades? Seria de bom tom fazer isso? Eu ficaria antipático diante dessa multidão de simpáticos? Vão colocar meu nome na macumba, ou me ameaçar ou arranhar meu carro se eu não aceitar alguém? Tenho medo dos psicopatas carentes que não sabem lidar com rejeição.

E o que fazer com as pessoas que eu só cumprimento, que já perdi contato, que morreram... tenho que tê-las eternamente como amigos pra quê?

Pior do que isso é decidir pela foto do perfil: já pensei em colocar a minha família feliz, eu e minha amada felizes, eu feliz sozinho, fotos de paisagens, fotos antigas, meu cachorro, meu aquário...

Procurando a foto perfeita, venho fazendo trocas de 10 em 10 minutos. Por enquanto está durando eu com a minha filha, mas quando você ler isso pode ser que já tenha mudado também.

Já me contaminei com a esquizofrenia de mostrar como também sou bonito e feliz, porém, por mais que a foto mostre isso, depois que eu a coloco no perfil ela mostra o contrário. Merda! Mas eu vou encontrar, eu sei que vou...

E isso porque estou enfaceado há menos de uma semana,  é só o começo.

Obsessões à parte, acho que vai ser isso daqui para frente: relações se formando, se estreitando e terminando sem, nem ao menos, as pessoas se tocarem.

Ah! Descobri ontem que o Face, pode ser também fb.

Apesar do velhinho em mim criticar, acredite, eu estou


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

365 dias


Estava tentando escrever este post sobre o ano que passou, quando minha filha me interrompeu perguntando se podia gritar uma coisa da janela.

Ela sabe que não é hora de estar acordada, muito menos de gritar pela janela, mas pra não me desconcentrar disse que sim, sem tirar os olhos do monitor. - sou pai, puxa!

Com o fôlego preparado, pronta para soltar a voz, ela aborta a missão para perguntar: "Posso mesmo?

Seria inútil escrever com ela por perto, então voltei a atenção para a pergunta, que tinha uma certa  transgressão no ar, não só pelo horário, mas pelo que seria comunicado janela à fora.

Sei que nada justifica uma criança de 5 anos ficar gritando pela janela tarde da noite, mas pior seria se fizesse isso gritando alguma coisa que eu fosse me arrepender de ter autorizado.

Perguntei, então, o que ela pretendia gritar e ela me respondeu que era uma frase que acabara  de ouvir na tv.

Essa frase resumia o que eu ia escrever sobre a expectativa do ano novo,  retrospectiva do que passou, ano bom ou ruim, baseado no balanço dos acontecimentos, as metas a serem alcançadas no ano que está chegando...

Sobre isso, três coisas são certas:

.é certo que nos últimos 365 dias vivemos emoções produzidas por vários acontecimentos, e tantas outras serão produzidas pelos acontecimentos dos próximos 365 dias que virão;

.é certo também, que mesmo após os 365 dias passados, não aprendemos que não podemos ter o controle dos próximos 365 dias e

.como também é certo que as realizações dos desejos não é certa, mas podemos desejar para os próximos 365.

Eu desejo que os acontecimentos nesses dias tragam emoções boas e felizes, e mesmo as não tão boas venham nos ensinar, nos fortalecer, nos revigorar não só para o restante dos 365 dias, como para toda a vida. É o que desejo pra mim e pra você.

Então minha filha gritou satisfeita da janela da sala: "Adeus ano velho, feliz ano novo!"

Só não sei se os vizinhos ficaram satisfeitos assim.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

só se for para enlouquecer







Um tempo atrás, voltava com meu enteado e um amigo não tão próximo dele, ambos por volta de 10 anos na época, de um lugar que eu não me lembro agora, e enquanto caminhávamos, me perguntaram o que era um corno.


Certamente deviam ter ouvido alguém ser chamado assim e não sabiam se era uma coisa ofensiva ou engraçada, já que, dependendo da situação, poderia ser uma ou outra, ou até as duas ao mesmo tempo.


Fiquei sem saber direito o que responder, porque achava que eles não precisavam ter contato tão cedo com assuntos de adultos e se decepcionar com as contradições do mundo de gente grande. 


Respondi de forma mais simples possível para crianças de 10 anos entender e para o assunto não render muito: 
_ Corno é um homem traído.
_ Traído pela mulher dele?
_ E por que que se traí?
_ Por um monte de razões, mas geralmente é porque gosta mais do que encontra em uma pessoa do que na outra.
_ Podiam, então, terminar com uma e casar com a outra.
_ É, podiam.
_ E por que não fazem isso?
_ Ás vezes até fazem, mas nem sempre.
_ Deve ser porque ter duas é melhor do que uma. - respondeu um dos moleques achando isso uma vantagem.
_ Só se for para enlouquecer. - pensei alto.
_ Enlouquecer por quê?
_ Porque aturar uma pessoa  já é difícil, quanto mais duas. Sem falar no trabalho pra esconder a traição.
_ Mas então, por que que se casam se é difícil aturar outra pessoa?
_ E por que traem, se dá trabalho trair?
_ Sei lá, pô! Tem gente que prefere correr o risco.
_ Você já foi corno?
_ Que eu saiba, não.
_ Mas se quem trai esconde que trai, e ninguém nunca te falou que você foi corno, então você pode ter sido também.
_ É... por isso que eu disse: "QUE EU SAIBA, NÃO."
_ E já traiu?
_ Quando era adolescente já. Não tinha muita maturidade...
_ E quando a pessoa trai não sendo mais adolescente?
_ É porque continua sem maturidade.


E a cada pergunta que eu respondia, gerava outras cada vez mais imperguntáveis, como as clássicas: "O que você faria se soubesse que é corno?"; "Se uma mulher toda boa quisesse ser sua amante, você trairia a sua mulher?"; "Você contaria pra algum corno que ele é corno?"; "O que você faria se quem te corneasse fosse o seu melhor amigo?";  "Você continuaria com uma pessoa mesmo sabendo que ela já te traiu?" ...


A palavra "corno" se repetindo a cada 5 segundos por 20 minutos dá uma irritação na testa mesmo de quem não é corno (ou pelo menos acha que não é) então encerrei o assunto:


_ Chega, pessoal! Já respondi o que era um corno, agora vamos mudar de assunto. 


Longe de cooperar, o amigo do meu filho apelou com uma revelação bombástica:
_ O meu pai é corno.
_ Que isso, garoto, ficou maluco? De onde você tirou isso? - perguntei querendo e não querendo saber.
_ A minha mãe já falou na cara dele.
_ Agora chega! Esse assunto acabou.
_ Mas é sério, teve uma vez...
_ Acabou, porra!